Luciana Obniski
Cargo: Editora da Época Online
Idade: 25 anos
Tempo que atua no Jornalismo: 6 anos
Principais veículos em que atuou: Ilustrada, GNT Fashion e Época.
A especialização na área de jornalismo Gastronômico vem crescendo bastante nos últimos anos, talvez por isso, os veículos de comunicação têm se dedicado cada vez mais ao tema. Essa impressão é verdadeira?
L.O. – Eu acho que é sim, principalmente por razões econômicas. Eu acho que sair para comer está cada vez mais importante na classe média. Por exemplo, em vez de comer uma pizza no sábado à noite, as pessoas, realmente, estão saindo mais para comer. Aquela uma vez, hoje são duas ou três vezes por semana e aí essas pessoas começam a buscar informações para ir a lugares diferentes, pois começa a ficar rotineiro ir sempre aos mesmos lugares que ela ia quando podia comer fora só uma vez por semana.
O que caracteriza o Jornalismo Gastronômico, atualmente?
L. O. – A crítica de restaurantes. Na verdade, lugares diversos, às vezes tem matéria sobre padarias, bares que servem comidas, enfim, qualquer estabelecimento que sirva alimentos. É considerado um serviço aos leitores.
Qual é o campo de trabalho para o jornalista que deseja se especializar em gastronomia?
L.O. – É restrito como qualquer outra crítica. Por exemplo, fazer crítica de cinema, musical, a crítica gastronômica tem o campo restrito o tanto quanto esses outros temas.
Quais são os principais desafios que você enxerga para essa área?
L.O. – Eu acho que não tem muita diferença entre essa área e outras áreas. Quando você vai ser crítico de alguma coisa, precisa estudar muito sobre aquilo, acho que o desafio seria o fato de não existir curso específico para isso. Tem curso de gastronomia para você ser ‘chef’, saber preparar os alimentos, mas não de crítica gastronômica.
Quais são os conhecimentos específicos que os profissionais de Jornalismo devem buscar para cobrir com eficiência essa área?
L.O. – Acho importante fazer o curso de Gastronomia, saber como os alimentos são preparados, enfim, os conceitos básicos da Gastronomia mundial. A partir do momento que você tem esse conhecimento, quando você é servido, consegue perceber se o alimento foi bem feito ou não.
Na sua avaliação, como qualificaria o Jornalismo Gastronômico feito pela imprensa brasileira?
L.O. – Eu acho que nós temos um problema, não acho que seja da publicação, mas uma crise no jornalismo como um todo. É muito complicado quando começa a discussão se você paga para as pessoas irem ao restaurante ou se elas são convidadas. Várias publicações aceitam convites, eu sei que a Época e a Veja não aceitam, então, se a gente vai fazer uma crítica, nós pagamos o restaurante e escrevemos a crítica cabível ao restaurante.
O problema é que nem todos os veículos agem assim e acabam atrapalhando o serviço em si. Porque aí você é convidado pelo restaurante, não vai querer falar mal e começa todo um problema ético. É ainda pior para o leitor que recebe a informação que nem sempre fiel.
Quais são os grandes profissionais da área que pela competência e seriedade poderiam servir como modelos para os jornalistas Gastronômicos?
L.O. – O Jorge Marmelo é muito bom; a Flavia Pinho que eu acho bem boa, ela tenta explicar as informações do jeito mais próximo ao leitor, e tem uma repórter da Folha chamada Janaina Fidalgo que eu gosto também.
Você poderia fazer uma rápida comparação do jornalismo Gastronômico feito no Brasil e o feito em outros países?
L.O. – A diferença é bem grande. Por exemplo, no caso da New York Magazine, uma revista conceituada no mundo todo nesse assunto, os críticos vão ao restaurante oito vezes com acompanhantes, antes de escrever. Então, se eles vão a um restaurante um pouco abaixo do padrão do Fasano, por exemplo, se cada um gastar 100 reais por refeição, eles vão gastar no final um total de 1.600 reais, isso é um gasto absurdo para o jornalismo brasileiro.
Dizem que eles vão em seis pessoas ao restaurante para testar também a eficiência da cozinha em entregar seis pratos ao mesmo tempo. A metodologia deles é muito absurda, comparada com a nossa que é muito menor. Eu acredito que a crítica fora do Brasil é mais bem feita, não porque os críticos são melhores, mas devido às condições que eles têm e nós não.
Como o jornalismo colabora com o setor gastronômico?
L.O. – Eu acho que os críticos bem conceituados,são procurados pelas pessoas que querem saber a opinião dele antes de ir a um restaurante. A crítica gastronomia fundamental, ela pode fazer ou derrubar um restaurante.
Qual o perfil do profissional dessa área?
L.O. – Para qualquer crítica é preciso gostar do que faz, então, no caso, ele precisa gostar de comer; eu acho que não pode ter muita restrição alimentar, acho difícil um vegetariano ser crítico; ter prazer em comer e não ter medo de sempre que puder se jogar em coisas diferentes.
Como é o seu dia-a-dia. A que horas começa e termina seu expediente, suas leituras diárias, compromissos etc.?
L.O. – Às 9 horas eu ligo meu computador em casa, para saber o que está rolando na cidade e no mundo; chego à redação antes do almoço, às vezes saio para almoçar, às vezes não e a noite eu costumo sair para jantar ou ir a algum bar.
Eu acho que rotina de jornalista dura 24 hora por dia. Quem quer seguir a profissão de jornalista, vai trabalhar 24 horas por dia, porque nada exclui a possibilidade de uma pauta cair no seu colo, por exemplo, numa conversa no ônibus pode surgir uma pauta.
Para Trabalhar com crítica gastronômica é necessário saber cozinhar?
L.O. – Não precisa saber cozinhar,mas também não dá para ignorar todo esse processo. Acho que qualquer pessoa que estude e tenha interesse em gastronomia não vai ser um completo desastre na cozinha, mas não precisa ser nenhum ‘chef’ não.
Na hora de cozinhar você prefere instruir, colocar a mão na massa ou fazer a avaliação do prato?
L.O. – Eu gosto de cozinhar. Gosto de colocar a mão na massa, gosto bastante.
Antes de decidir pela Gastronomia, por quais áreas você passou?
L.O. – Eu já trabalhei com Cultura, Social, Moda e, agora, Gastronomia.
Qual a entrevista mais importante mais marcante na sua carreira?
L.O. – Sinceramente, acho que ainda não tive uma que, assim, que me marcasse muito.
Quem você gostaria de entrevistar e não teve oportunidade?
L.O. – Boa pergunta. Acho que o Thom Yorke.
Como você define o assessor de imprensa ligado ao Jornalismo Gastronômico?
L.O. – Na maioria das vezes eles colaboram conosco, mas tem aquela coisa do veículo, a partir do momento em que você estabelece que não aceita convites, eles ajudam em avisar quando um restaurante está abrindo e dar um respaldo se precisar de mais alguma informação.
Em sua opinião, quais as principais diferenças entre o assessor de imprensa e o jornalista de veículo?
L.O. – Há uma diferença gritante. O assessor vende um produto que às vezes ele não acredita e os jornais/revistas vendem aquilo que acreditam. Até onde eu quero acreditar, o veículo de comunicação trabalha com o intuito de ser sempre isento.
Cite um filme que todo jornalista deveria assistir
L.O. – Eu gosto muito do ‘Depois daquele beijo’, acho que mostra muito essa coisa de nós jornalista buscarmos a verdade e se não for a verdade, o que nós passamos para os outros e o quanto a gente interfere nisso ou não.
E livros voltados à Gastronomia?
L.O. – Livro para você saber aonde ir tem o guia do Jorge Marmelo, lançado todo ano. Como ele é um crítico conceituado, acho importante ler algumas críticas dele e visitar os restaurantes que ele diz ser bom ou ruim para entender qual é o padrão dele. Para quem quer seguir Jornalismo Gastronômico o guia dele é ideal, é bem completo.
Em sua opinião, quais serão as próximas grandes mudanças no exercício da função e como os profissionais devem se preparar para elas?
L.O. – A internet chegou para ficar, não tem jeito. Cada vez mais o dinheiro e as pessoas vão para lá. Eu acho que qualquer pessoa que ache que vai passar a vida inteira no impresso está louca e eu, realmente, acredito que daqui a cinco anos quem não tiver nenhuma experiência em jornalismo, seu diploma não valerá nada. Hoje em dia, o mercado já é assim, existem vagas que antes eram ocupadas por jornalistas e hoje são ocupadas por pessoas bem relacionadas com a internet.
Então, o mais importante que eu acho é não excluir o fator internet.
Qual o conselho que você deixa ao jornalista que está iniciando a carreira?
L.O. – A pessoa tem que prestar atenção no que consegue fazer bem e apostar nisso. Acho que o jornalismo é uma profissão meio ingrata porque às vezes nós confundimos nossos hobbies com o trabalho, então, a pessoa precisa separar bem o que ela faz por hobby e o que ela faz bem. Deve seguir o que faz bem e não o que gostaria de fazer bem.
Publicado em 29/01/2010
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